A Imortalidade algorítmica: você conversaria com um clone digital de quem já partiu?
Imagine abrir o celular e receber uma mensagem de voz carinhosa da sua mãe. A voz tem o mesmo tom acolhedor, as mesmas gírias e o mesmo afeto de sempre. O único detalhe? Ela faleceu há alguns anos. Essa cena, que antes parecia restrita aos episódios distópicos de ficção científica, tornou-se uma realidade comercial palpável através do avanço da chamada “grief tech” (tecnologia do luto).
Empresas globais estão usando o aprendizado de máquina para sintetizar áudios, textos e imagens de pessoas que já morreram, criando clones digitais que desafiam a fronteira final da existência humana.A tecnologia ganhou tração real após a explosão da inteligência artificial generativa. No passado recente, as interações dependiam de acervos engessados como museus do Holocausto, por exemplo, utilizavam hologramas baseados estritamente em depoimentos pré-gravados.
Hoje, ferramentas integradas a modelos de linguagem conseguem gerar respostas inéditas e dinâmicas. O sistema não repete falas antigas; ele pensa e responde de forma fiel ao histórico, memórias e trejeitos que o falecido deixou em vida.Para alguns usuários, a experiência funciona como uma espécie de super-herói emocional.
O pioneiro do setor e fundador da plataforma You, Only Virtual, Justin Harrison, também mantém conversas frequentes com o avatar de sua mãe, falecida em 2022, encontrando no software o suporte que a ausência física interrompeu.No entanto, essa eternidade programada caminha lado a lado com dilemas éticos profundos e falhas técnicas.
Especialistas alertam para riscos graves: e se o sistema for abastecido com dados errados e começar a inventar falsas memórias ou difamações? Além do risco técnico, psicoterapeutas alertam que reter artificialmente a presença de quem partiu pode congelar o processo psicológico do luto, impedindo a necessária aceitação de que a vida mudou.
Se os algoritmos conseguem replicar perfeitamente nossos conselhos, memórias e timbres, até que ponto a nossa identidade pertence a nós mesmos ou passa a ser propriedade de quem programa a nossa imortalidade?



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